Inteligência de Dados
Sinistro sem dado é aposta: o custo oculto da decisão cega
Venho acompanhando operações de sinistro que tomam decisões de indenização com menos informação do que um consumidor tem ao comprar um carro usado. Neste artigo
A pergunta que ninguém faz antes de pagar
Na semana passada, conversei com um gerente de sinistros de uma associação de proteção veicular do interior de São Paulo. Ele me mostrou, orgulhoso, o tempo médio de regulação da operação: menos de 48 horas da abertura ao pagamento. Perguntei quantas dessas regulações incluíam consulta ao histórico do veículo antes da decisão. Ele hesitou. "A gente consulta o Detran quando o perito pede."
Aí está o problema.
Velocidade de pagamento é uma métrica de eficiência. Mas eficiência sem inteligência não é produtividade, é velocidade para o lugar errado. E, no sinistro de auto, o lugar errado costuma ter um nome: pagamento indevido.
Resposta direta: A decisão de sinistro tomada sem enriquecimento de dados do veículo opera com informação incompleta por definição. O regulador não sabe se aquele carro já esteve em leilão, se tem ocorrências anteriores em outras operadoras, se o histórico de proprietários é consistente com a narrativa do segurado. Sem isso, qualquer modelo antifraude, por mais sofisticado que seja, começa com as mãos atadas.
Por que a maioria das operações ainda decide sem dados?
A resposta honesta não é falta de tecnologia. É hábito operacional calcificado.
Durante anos, o modelo padrão do mercado segurador brasileiro foi simples: abre o sinistro, aciona o perito, perito vai ao pátio, emite o laudo, financeiro paga. O laudo era o dado. E o laudo, como já escrevi antes, só enxerga o que está na frente do perito no dia da vistoria.
O que esse modelo nunca enxergou é o que estava no histórico do veículo antes daquele sinistro. Um carro que transitou por três proprietários em oito meses. Uma placa com registro de perda total em outra seguradora dois anos atrás. Um chassis com inconsistência entre ano de fabricação declarado e dados do Renavam. Essas informações existem. Elas estão em bases públicas e privadas. A decisão simplesmente não as consulta.