Antifraude
Fraude em sinistro: o que o laudo tradicional não enxerga
Depois de anos operando na fronteira entre dados e sinistros, percebi que o maior problema não é a fraude em si, mas a crença de que o laudo fotográfico ainda é
Na semana passada, um gerente de sinistros de uma APV com cerca de 8 mil associados me fez uma pergunta que fico escutando com frequência crescente: 'Tiago, a gente já usa um fornecedor de laudo há anos. Por que isso não é suficiente?'
Fiz uma pausa antes de responder. Não porque a pergunta fosse difícil, mas porque a resposta honesta exige que o interlocutor esteja disposto a ouvir algo desconfortável. Respondi com outra pergunta: 'Quantos sinistros pagos nos últimos seis meses você consegue rastrear por CPF, por histórico de veículo, por padrão de acionamento?' O silêncio foi a resposta.
Esse silêncio me persegue. Porque ele se repete em seguradoras de porte médio, em proteções veiculares que estão correndo para se adequar à LC 213/2025, em insurtechs que nasceram digitais mas ainda dependem de processos analógicos no coração do claims. O problema não é falta de vontade. É falta de visão sobre onde a fraude realmente se esconde.
O laudo vê o carro. A fraude mora nos dados
Preciso ser direto aqui, mesmo que isso incomode alguns colegas do mercado: o laudo fotográfico resolve um problema de 2005. Ele documenta avaria visível. Mas a fraude de sinistro em 2026 opera em camadas que a foto não alcança.
O que tenho observado, trabalhando com carteiras que vão de 3 mil a mais de 50 mil veículos, é que as fraudes mais custosas raramente aparecem na imagem do veículo. Elas aparecem no padrão de comportamento, no histórico de CPF, na inconsistência entre o histórico do chassi e o que está sendo declarado, na recorrência de um mesmo reparador em sinistros com perfil similar.
O que o laudo fotográfico captura
O laudo tradicional é bom para o que foi desenhado: confirmar avaria física, estimar extensão do dano, orientar o regulador no cálculo da indenização. Isso tem valor. Não estou dizendo que é inútil.
Mas ele responde a uma pergunta muito estreita: 'o carro está danificado?' A pergunta que importa para antifraude é outra: 'esse sinistro faz sentido dado tudo